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Rastreamento do câncer de próstata: quando fazer o exame de PSA

Por Dr. Bruno Benigno, urologista e uro-oncologista · CRM-SP 126265 · Revisado em 04/11/2026

Resposta rápidaPara a maioria dos homens, a conversa sobre o exame de PSA começa aos 50 anos. Quem tem pai ou irmão com a doença, homens negros e portadores de alteração no gene BRCA2 devem começar mais cedo, entre 40 e 45 anos. A decisão de fazer o exame é tomada junto com o médico12.
Vídeo: PSA salva vidas? O que o Congresso Americano de Urologia revelou em 2026 — Dr. Bruno Benigno

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O Dr. Bruno Benigno comenta os dados mais recentes apresentados no congresso da Associação Americana de Urologia sobre o papel do PSA na detecção precoce do câncer de próstata.

Em resumo

O que é rastreamento do câncer de próstata e por que ele existe?

Rastreamento é fazer exames em homens que não têm sintomas, para encontrar o câncer cedo, quando o tratamento tem mais chance de cura. No câncer de próstata, o exame central é o PSA, uma dosagem simples no sangue. Ele não diagnostica o câncer sozinho, mas indica quem precisa de investigação.

O maior estudo sobre o tema, o europeu ERSPC, acompanhou mais de 162 mil homens de 55 a 69 anos por 23 anos. No grupo convidado a fazer o PSA de forma periódica, as mortes por câncer de próstata foram 13% menores. Na prática, uma morte foi evitada a cada 456 homens convidados para o rastreamento3.

O mesmo estudo mostra o outro lado: o rastreamento aumentou em 30% o número de diagnósticos3. Parte desses cânceres cresce tão devagar que nunca causaria problema. É o chamado sobrediagnóstico, e é por causa dele que a decisão de fazer o exame deve ser conversada.

Por que não esperar sintomas? Porque o câncer inicial quase nunca dá sinais. Entenda melhor em sintomas do câncer de próstata.

A partir de que idade fazer o exame de PSA?

Para a maioria dos homens, a conversa sobre o PSA começa aos 50 anos. A Sociedade Brasileira de Urologia orienta uma avaliação individualizada a partir dessa idade e, para homens negros ou com pai ou irmão com câncer de próstata, a partir dos 45 anos.

A SBU também orienta que, depois dos 75 anos, a avaliação seja feita apenas em homens com expectativa de vida maior que 10 anos1. Nessa fase, um câncer de crescimento lento dificilmente teria tempo de causar problemas.

As diretrizes europeias recomendam uma estratégia adaptada ao risco, que em geral começa aos 50 anos e leva em conta a expectativa de vida de cada homem2. A diretriz americana recomenda o PSA associado à decisão compartilhada e admite intervalos maiores entre os exames para quem tem PSA baixo4.

Na prática: o primeiro PSA ajuda a definir o seu risco. Com um valor baixo, o próximo exame pode ser feito com um intervalo maior, combinado com o seu médico.

Quem tem mais risco e deve começar mais cedo?

Três grupos têm risco maior e devem começar a conversa mais cedo: homens com pai ou irmão que tiveram câncer de próstata, homens negros e portadores de alterações genéticas hereditárias, principalmente no gene BRCA2. Para esses grupos, o início costuma ser entre 40 e 45 anos.

Ter pai ou irmão com a doença aumenta o risco em cerca de 2,5 vezes; com dois ou mais parentes de primeiro grau afetados, o aumento é de mais de 4 vezes5.

Nos Estados Unidos, homens negros morrem de câncer de próstata duas vezes mais do que homens brancos6. Por isso a SBU orienta começar aos 45 anos nesse grupo1.

Portadores de alteração no gene BRCA2 têm risco de 27% de ter câncer de próstata até os 75 anos e de 60% até os 85 anos7. Nesses homens, o câncer costuma aparecer mais cedo e ser mais agressivo8, e o consenso internacional recomenda iniciar o rastreamento aos 40 anos9.

Veja todos os detalhes em fatores de risco, histórico familiar e genética.

Como funciona o rastreamento hoje: PSA, ressonância e biópsia

Hoje o caminho é em etapas: primeiro o PSA; se ele estiver alterado, vem a ressonância magnética da próstata; a biópsia fica para quando a ressonância ou outros dados apontam uma chance real de câncer importante. Essa sequência reduz biópsias desnecessárias.

No estudo PRECISION, 28% dos homens com PSA alterado tiveram ressonância normal e não precisaram de biópsia. Mesmo assim, o caminho com ressonância encontrou mais cânceres relevantes do que a biópsia tradicional: 38% contra 26%10.

Num estudo sueco de rastreamento com mais de 17 mil participantes, usar a ressonância para escolher quem faz biópsia reduziu pela metade o diagnóstico de cânceres de baixo risco, que não precisariam de tratamento11.

Entenda cada etapa: PSA elevado: o que fazer, o que significa o PI-RADS da ressonância e como é a biópsia.

O toque retal ainda é necessário?

Como exame isolado de rastreamento, o toque retal tem baixo desempenho. Num grande estudo alemão, ele encontrou quatro vezes menos cânceres do que o PSA, e 86% dos cânceres achados pelo PSA tinham toque normal. Por isso, o PSA é o exame principal.

Os números são do estudo PROBASE, com mais de 46 mil homens de 45 anos: a taxa de detecção pelo toque retal foi de 0,05%, contra 0,21% pelo PSA12. Uma revisão de estudos feitos em consultórios de atenção primária chegou à mesma conclusão: o toque, sozinho, deixa de identificar cerca de metade dos cânceres13.

Isso não quer dizer que o toque não tenha valor. Na consulta com o urologista, ele ainda ajuda a avaliar a próstata quando há alteração no PSA e entra nas calculadoras de risco usadas pelas diretrizes2. A decisão de fazê-lo é do médico, caso a caso.

Por que o INCA e as sociedades de urologia falam coisas diferentes?

Porque olham para perguntas diferentes. O Ministério da Saúde avalia o rastreamento de toda a população e, por isso, não o recomenda. As sociedades de urologia avaliam o homem que procura o médico e recomendam oferecer o PSA a quem está bem informado. As duas posições defendem a decisão compartilhada.

Em 2023, o Ministério da Saúde e o INCA reafirmaram que não recomendam o rastreamento populacional, por considerarem que o aumento de diagnósticos vem acompanhado de danos, como tratamentos desnecessários com efeitos na vida sexual e urinária. Para homens que procuram o exame, o órgão orienta uma ampla discussão de riscos e benefícios14.

A SBU e as diretrizes europeias e americanas recomendam oferecer o PSA a homens informados, com estratégia por idade e risco124. O acompanhamento mais longo do estudo europeu mostrou que o benefício em vidas salvas aumenta com o tempo3.

Os dois lados concordam num ponto: o exame deve ser uma escolha consciente. Ressonância antes da biópsia e vigilância ativa para tumores de baixo risco diminuem os danos que preocupam o Ministério da Saúde112.

Como decidir junto com o médico se faço o PSA?

A decisão leva em conta sua idade, seu risco, sua saúde geral e o que é importante para você. O médico explica o que um resultado alterado pode significar e quais seriam os próximos passos. Assim você decide sabendo dos benefícios e também dos limites do exame.

Pontos que ajudam nessa conversa:

Essa última pergunta é importante: para tumores de baixo risco, a vigilância ativa é a conduta recomendada pelas diretrizes2. Ela evita tratar quem não precisa e mantém a segurança.

Perguntas frequentes

A partir de que idade devo fazer o exame de próstata?

Para a maioria dos homens, a partir dos 50 anos, depois de uma conversa com o urologista. Homens negros ou com pai ou irmão com câncer de próstata devem começar aos 45 anos1, e portadores de alteração no gene BRCA2, aos 409.

Homem negro deve fazer o exame de próstata mais cedo?

Sim. A SBU orienta começar a avaliação aos 45 anos1. Dados dos Estados Unidos mostram que a mortalidade por câncer de próstata em homens negros é o dobro da observada em homens brancos6.

O exame de PSA substitui o toque retal?

No rastreamento, o PSA é o exame principal. O toque retal sozinho deixa passar a maior parte dos cânceres encontrados pelo PSA12. Na consulta, o urologista pode associar o toque quando achar necessário2.

De quanto em quanto tempo devo repetir o PSA?

Depende do valor do primeiro exame, da sua idade e do seu risco. Quem tem PSA baixo pode repetir com intervalos maiores, definidos com o médico42. Não existe um intervalo único que sirva para todos.

Até que idade vale a pena fazer o PSA?

Depois dos 75 anos, a SBU orienta a avaliação apenas para homens com expectativa de vida maior que 10 anos1. Nessa idade, a decisão é ainda mais individual.

Por que o Ministério da Saúde não recomenda o rastreamento?

Porque, olhando para toda a população, considera que o aumento de diagnósticos vem com danos, como tratamentos desnecessários. Para quem procura o exame, o próprio Ministério orienta conversar sobre riscos e benefícios e decidir junto com o médico14.

Fazer o PSA aumenta o risco de tratamento desnecessário?

Esse risco existe, mas diminuiu muito. A ressonância antes da biópsia reduz o diagnóstico de tumores sem importância11, e a vigilância ativa evita tratar tumores de baixo risco2.

Perguntas para levar à consulta

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Referências científicas

  1. Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). Aconselhamento para o diagnóstico precoce do câncer de próstata. Rio de Janeiro: SBU; 20 out 2020. Disponível online
  2. Cornford P, van den Bergh RCN, Briers E, Van den Broeck T, Brunckhorst O, Darraugh J, et al. EAU-EANM-ESTRO-ESUR-ISUP-SIOG Guidelines on Prostate Cancer-2024 Update. Part I: Screening, Diagnosis, and Local Treatment with Curative Intent. Eur Urol. 2024;86(2):148-163. doi:10.1016/j.eururo.2024.03.027 · PubMed 38614820
  3. Roobol MJ, de Vos II, Månsson M, Godtman RA, Talala KM, den Hond E, et al. European Study of Prostate Cancer Screening - 23-Year Follow-up. N Engl J Med. 2025;393(17):1669-1680. doi:10.1056/NEJMoa2503223 · PubMed 41160819
  4. Wei JT, Barocas D, Carlsson S, Coakley F, Eggener S, Etzioni R, et al. Early Detection of Prostate Cancer: AUA/SUO Guideline Part I: Prostate Cancer Screening. J Urol. 2023;210(1):46-53. doi:10.1097/JU.0000000000003491 · PubMed 37096582
  5. Kiciński M, Vangronsveld J, Nawrot TS. An epidemiological reappraisal of the familial aggregation of prostate cancer: a meta-analysis. PLoS One. 2011;6(10):e27130. doi:10.1371/journal.pone.0027130 · PubMed 22073129
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  12. Krilaviciute A, Becker N, Lakes J, Radtke JP, Kuczyk M, Peters I, et al. Digital Rectal Examination Is Not a Useful Screening Test for Prostate Cancer. Eur Urol Oncol. 2023;6(6):566-573. doi:10.1016/j.euo.2023.09.008 · PubMed 37806841
  13. Naji L, Randhawa H, Sohani Z, Dennis B, Lautenbach D, Kavanagh O, et al. Digital Rectal Examination for Prostate Cancer Screening in Primary Care: A Systematic Review and Meta-Analysis. Ann Fam Med. 2018;16(2):149-154. doi:10.1370/afm.2205 · PubMed 29531107
  14. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Ministério da Saúde recomenda o não rastreamento populacional do câncer de próstata. Rio de Janeiro: INCA; 26 out 2023. Disponível online

Diretrizes

Baseado nas diretrizes da EAU (2024), da AUA/SUO (2023), na orientação da SBU e na nota do Ministério da Saúde e do INCA (2023).

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