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Vigilância ativa: quando o melhor tratamento é monitorar

Por Dr. Bruno Benigno, urologista e uro-oncologista · CRM-SP 126265 · Revisado em 23/09/2026

Resposta rápidaNem todo câncer de próstata precisa ser operado. Nos tumores de baixo risco, a vigilância ativa oferece a mesma sobrevida a longo prazo — sem os efeitos colaterais da cirurgia ou radioterapia.
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Nem todo câncer de próstata precisa ser tratado de imediato. Entenda a vigilância ativa — e por que uma parcela dos pacientes acaba saindo do protocolo ao longo do tempo.

Em resumo

O que é vigilância ativa no câncer de próstata?

Vigilância ativa é uma forma de cuidar do câncer de próstata de baixo risco sem operar nem irradiar de imediato. O tumor é acompanhado de perto com PSA, ressonância e biópsias programadas, e o tratamento curativo é indicado se houver sinais de que ele ficou mais agressivo.

Muitos homens se assustam com a palavra câncer e sentem que precisam 'tirar logo'. Mas boa parte dos tumores de próstata descobertos hoje cresce muito devagar. As diretrizes europeia (EAU) e americana (AUA) recomendam a vigilância ativa como a conduta de escolha para a maioria dos homens com doença de baixo risco1,2.

A ideia é simples: evitar tratar quem não precisa, poupando o homem dos efeitos da cirurgia e da radioterapia, sem perder a chance de cura de quem, no futuro, precise ser tratado.

Vigilância ativa é diferente de observação (também chamada de conduta expectante). Na observação, pensada para homens mais idosos ou com outras doenças importantes, não há intenção de cura: trata-se apenas se surgirem sintomas. Na vigilância ativa, o objetivo continua sendo a cura, caso ela se torne necessária.

Quem pode fazer vigilância ativa? Quais são os critérios?

Os candidatos típicos têm tumor Gleason 6 (ISUP 1), PSA abaixo de 10 ng/mL e doença restrita à próstata. Alguns homens com Gleason 3+4 (ISUP 2) e pouca quantidade de tumor também podem ser candidatos, mas somente após uma avaliação individual cuidadosa.

O Gleason é a nota que o patologista dá à aparência das células do tumor; o ISUP é a forma moderna de expressar essa nota, de 1 (menos agressivo) a 5 (mais agressivo). Tumores ISUP 1 raramente se espalham1.

Para alguns homens com risco intermediário favorável, as diretrizes aceitam a vigilância em casos selecionados, especialmente quando a proporção do padrão 4 é pequena e a ressonância mostra pouca doença1,2. Nesse ponto há diferenças entre centros e entre diretrizes, e a decisão precisa ser muito bem conversada.

Em geral, a vigilância não é indicada quando há:

A vigilância ativa é segura? O que dizem os estudos de longo prazo?

Sim, para os homens bem selecionados. Em um grande estudo canadense, a sobrevida sem morte pelo câncer foi de 98,1% em 10 anos e 94,3% em 15 anos, e mais da metade dos homens seguia sem precisar de tratamento após 15 anos3.

Um dos estudos mais longos acompanhou 993 homens em vigilância ativa. Em 15 anos, 1,5% morreram de câncer de próstata, enquanto a grande maioria das mortes foi por outras causas, como doenças do coração. Aos 5, 10 e 15 anos, respectivamente 75,7%, 63,5% e 55,0% dos homens continuavam sem tratamento3.

O estudo ProtecT, publicado no New England Journal of Medicine, sorteou 1.643 homens para monitoramento, cirurgia ou radioterapia. Após 15 anos, a mortalidade pelo câncer foi baixa e semelhante nos três grupos: 3,1%, 2,2% e 2,9%4.

É importante dizer com honestidade: no ProtecT, o grupo monitorado teve mais metástases (9,4% contra cerca de 5% nos tratados)4. Porém, mais de um terço daqueles homens tinha risco intermediário ou alto, e o monitoramento era feito basicamente com PSA, sem ressonância e biópsias de rotina. A vigilância ativa atual é mais rigorosa e reservada a tumores de menor risco.

Como funciona o protocolo de vigilância ativa?

O acompanhamento combina PSA periódico, exame clínico, ressonância magnética da próstata e biópsias de controle. O ritmo exato varia entre protocolos e serviços, mas costuma ser mais frequente nos primeiros anos e depois se adapta à estabilidade do tumor ao longo do tempo.

Um roteiro comum, inspirado nas diretrizes, inclui1,2:

Como é a biópsia durante a vigilância?

A biópsia de controle confirma que o tumor continua de baixo risco. Hoje ela costuma ser guiada pela ressonância e pode ser feita pela pele do períneo (via transperineal), com sedação associada à anestesia local para mais conforto, geralmente sem necessidade de internação.

A biópsia transperineal é feita pela região entre o saco escrotal e o ânus, sem passar pelo reto. Por isso, está associada a menor risco de infecção, e as diretrizes europeias passaram a preferi-la1.

Para que o procedimento seja tranquilo, pode ser realizada com sedação associada à anestesia local. Na maioria das vezes, o paciente volta para casa no mesmo dia.

Nem toda subida de PSA significa piora. Segundo as diretrizes, a mudança de conduta deve se basear principalmente na biópsia e na ressonância, e não apenas em uma variação isolada do PSA1.

Quando é preciso sair da vigilância e tratar?

O tratamento é indicado quando a biópsia mostra aumento do grau (por exemplo, surgimento de padrão 4), aumento importante da quantidade de tumor ou progressão na ressonância. Também é legítimo mudar de ideia por preferência pessoal, sempre após uma conversa franca com o médico.

Sair da vigilância não é um fracasso. Faz parte do plano. No estudo canadense, cerca de 45% dos homens acabaram tratados em 15 anos, e a mortalidade pelo câncer foi compatível com a esperada para homens de risco favorável tratados logo de início3.

Alguns homens preferem tratar pela ansiedade de conviver com o diagnóstico. Isso é compreensível e deve ser acolhido. No ProtecT, porém, os níveis de ansiedade e depressão foram parecidos entre os grupos monitorados e tratados5.

O que se ganha e o que se arrisca com a vigilância ativa?

O principal ganho é adiar, ou até evitar, os efeitos da cirurgia e da radioterapia sobre a ereção, a continência urinária e o intestino. O custo é a necessidade de exames regulares e um risco pequeno de o tumor progredir entre um controle e outro.

No ProtecT, a cirurgia teve o maior impacto sobre ereção e continência, e a radioterapia afetou mais o intestino nos primeiros meses. No grupo monitorado, essas funções declinaram lentamente, em parte pelo próprio envelhecimento5.

Durante a vigilância, manter peso adequado, atividade física, alimentação equilibrada e não fumar faz bem à saúde geral. Não há, porém, dieta ou suplemento comprovado que impeça a progressão do tumor.

A escolha é sempre individual e deve ser feita em conjunto com o médico, levando em conta o laudo, a ressonância, a idade, a saúde geral e os valores de cada homem.

Perguntas frequentes

Todo câncer de próstata precisa ser operado?

Nem todo câncer de próstata precisa ser operado. Nos tumores de baixo risco, a vigilância ativa oferece a mesma sobrevida a longo prazo — sem os efeitos colaterais da cirurgia ou radioterapia.

Gleason 6 é perigoso?

Na grande maioria das vezes, não. O Gleason 6 (ISUP 1) é o grau mais baixo atribuído hoje e raramente se espalha para outros órgãos. Por isso, as diretrizes recomendam a vigilância ativa como primeira opção para a maioria desses homens. Ainda assim, é preciso confirmar que a biópsia foi bem feita e que a ressonância não mostra doença mais extensa.

Vigilância ativa é o mesmo que não fazer nada?

Não. Vigilância ativa é um acompanhamento estruturado, com PSA, ressonância e biópsias em datas programadas. O objetivo é oferecer tratamento curativo no momento certo, se o tumor mudar de comportamento. Já a observação, sem intenção de cura, é outra estratégia, pensada para homens mais idosos ou com outras doenças importantes.

Quanto tempo dura a vigilância ativa?

Pode durar muitos anos, ou a vida toda. Em um estudo com seguimento de até 15 anos, cerca de 55% dos homens continuavam em vigilância, sem precisar de cirurgia ou radioterapia. Os demais foram tratados quando surgiram sinais de mudança no tumor, na maioria das vezes com boa chance de controle da doença.

Se eu esperar, perco a chance de cura?

Para homens bem selecionados e acompanhados com rigor, os estudos mostram que a chance de cura é preservada na grande maioria dos casos. O risco não é zero: uma parcela pequena pode progredir entre os exames. Por isso, seguir o calendário de exames é fundamental, e a decisão deve ser revista periodicamente com o médico.

A biópsia de controle dói?

Quando feita pela via transperineal, a biópsia pode ser realizada com sedação associada à anestesia local, o que torna o procedimento confortável para a maioria dos pacientes. Costuma ser um procedimento ambulatorial, com retorno para casa no mesmo dia. Desconfortos leves, sangue na urina ou no esperma por alguns dias podem acontecer.

Posso escolher tratar mesmo sendo candidato à vigilância?

Sim. A vigilância ativa é recomendada, mas não obrigatória. Alguns homens preferem tratar por ansiedade ou por dificuldade de manter os exames regulares. O importante é tomar essa decisão bem informado, conhecendo os efeitos colaterais possíveis de cada tratamento e conversando com o urologista e, se desejar, também com o radio-oncologista.

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Referências científicas

  1. Cornford P, van den Bergh RCN, Briers E, Van den Broeck T, Brunckhorst O, Darraugh J, et al. EAU-EANM-ESTRO-ESUR-ISUP-SIOG Guidelines on Prostate Cancer-2024 Update. Part I: Screening, Diagnosis, and Local Treatment with Curative Intent. Eur Urol. 2024;86(2):148-63. doi:10.1016/j.eururo.2024.03.027 · PubMed 38614820
  2. Eastham JA, Auffenberg GB, Barocas DA, Chou R, Crispino T, Davis JW, et al. Clinically Localized Prostate Cancer: AUA/ASTRO Guideline, Part I: Introduction, Risk Assessment, Staging, and Risk-Based Management. J Urol. 2022;208(1):10-8. doi:10.1097/JU.0000000000002757 · PubMed 35536144
  3. Klotz L, Vesprini D, Sethukavalan P, Jethava V, Zhang L, Jain S, et al. Long-term follow-up of a large active surveillance cohort of patients with prostate cancer. J Clin Oncol. 2015;33(3):272-7. doi:10.1200/JCO.2014.55.1192 · PubMed 25512465
  4. Hamdy FC, Donovan JL, Lane JA, Metcalfe C, Davis M, Turner EL, et al. Fifteen-Year Outcomes after Monitoring, Surgery, or Radiotherapy for Prostate Cancer. N Engl J Med. 2023;388(17):1547-58. doi:10.1056/NEJMoa2214122 · PubMed 36912538
  5. Donovan JL, Hamdy FC, Lane JA, Mason M, Metcalfe C, Walsh E, et al. Patient-Reported Outcomes after Monitoring, Surgery, or Radiotherapy for Prostate Cancer. N Engl J Med. 2016;375(15):1425-37. doi:10.1056/NEJMoa1606221 · PubMed 27626365

Diretrizes

Baseado em NCCN 2025, EAU 2025 e estudo ProtecT (NEJM)

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Este conteúdo é educativo e não substitui a avaliação individual com seu médico.