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Lutécio-177 PSMA (Pluvicto): a radiação que viaja até o tumor

Por Dr. Bruno Benigno, urologista e uro-oncologista · CRM-SP 126265 · Revisado em 23/09/2026

Resposta rápidaO Lu-PSMA é um radioligante: uma molécula que encontra as células do câncer pelo corpo e entrega radiação diretamente nelas. Indicado em doença metastática resistente, após outras linhas de tratamento.

Em resumo

O que é o Lutécio-177 PSMA (Pluvicto)?

O Lutécio-177 PSMA é um radioligante: uma molécula aplicada na veia que procura as células do câncer de próstata pelo corpo e entrega radiação diretamente nelas. O nome comercial do medicamento aprovado é Pluvicto, e o tratamento é feito pela equipe de medicina nuclear.

O tratamento tem duas partes. A primeira é uma molécula que se liga ao PSMA (antígeno de membrana específico da próstata), uma proteína presente em grande quantidade na superfície da maioria das células do câncer de próstata. A segunda é o lutécio-177, um material radioativo que emite radiação de curto alcance1.

Funciona como um "míssil teleguiado": a parte PSMA leva o medicamento até o tumor, e o lutécio irradia as células ao redor, com alcance de poucos milímetros. Assim, a radiação se concentra onde está a doença, poupando boa parte dos tecidos sadios.

Por atingir o tumor onde quer que ele esteja, o tratamento pode alcançar ao mesmo tempo metástases em ossos, linfonodos e outros órgãos.

Para quem o Lutécio-177 PSMA é indicado?

O Lutécio-177 PSMA é indicado para homens com câncer de próstata metastático resistente ao bloqueio hormonal, cujo PET-PSMA mostre que o tumor expressa o alvo, e que já passaram por outras linhas de tratamento, como os ARPIs e, em geral, a quimioterapia.

No estudo VISION, que levou à aprovação do tratamento, participaram homens com doença metastática resistente ao bloqueio hormonal que já tinham recebido pelo menos um ARPI (como abiraterona ou enzalutamida) e uma ou duas linhas de quimioterapia com taxanos1.

O estudo PSMAfore avaliou o uso antes da quimioterapia, em homens que progrediram após um ARPI. O tempo sem progressão nos exames foi de 9,3 meses com o Lu-PSMA, contra 5,6 meses com a troca de ARPI2. Com base nesse resultado, alguns países ampliaram a indicação; as regras de aprovação e de cobertura no Brasil, pelo plano de saúde ou pelo SUS, podem variar e devem ser verificadas no momento da indicação.

As diretrizes europeias incluem o Lu-PSMA entre as opções para a doença resistente ao bloqueio hormonal já tratada com ARPI e quimioterapia3. A indicação é sempre discutida por uma equipe multidisciplinar.

Por que o PET-PSMA é obrigatório antes do tratamento?

O PET-PSMA mostra se as células do tumor têm o alvo PSMA em quantidade suficiente para o medicamento se ligar. Se o tumor não expressa PSMA, o Lutécio não consegue chegar até ele, e o tratamento não traria benefício. Por isso, o exame é obrigatório antes de indicar.

No VISION, só puderam participar homens com PET-PSMA positivo1. No estudo TheraP, além do PET-PSMA, os médicos usaram também o PET com FDG para excluir homens com áreas de doença que não captavam PSMA. Dos 291 homens avaliados, 200 tinham exames compatíveis com o tratamento4.

Isso significa que uma parte dos homens não é candidata ao Lu-PSMA, e isso não quer dizer falta de opções. Nesses casos, outros tratamentos são considerados.

O Lutécio-177 PSMA funciona? O que mostram os estudos

Sim. No estudo VISION, somar o Lu-PSMA ao tratamento padrão aumentou a sobrevida mediana de 11,3 para 15,3 meses e reduziu o risco de morte em 38%, em homens com doença já muito tratada. O tratamento controla a doença, mas não é considerado curativo.

No VISION, com 831 homens, o tempo sem progressão nos exames de imagem passou de 3,4 para 8,7 meses e a sobrevida mediana de 11,3 para 15,3 meses1. Os benefícios apareceram em todos os objetivos secundários, incluindo tempo até complicações nos ossos.

No TheraP, que comparou o Lu-PSMA com a quimioterapia cabazitaxel, o PSA caiu pela metade ou mais em 66% dos homens tratados com Lu-PSMA, contra 37% com cabazitaxel. Efeitos colaterais graves foram menos frequentes: 33% contra 53%4.

Esses números são médias de grupos de pacientes. A resposta de cada homem varia, e alguns respondem por muito mais tempo que a média.

Como é o tratamento na prática: quantas sessões?

O Lutécio-177 PSMA é aplicado na veia, em serviço de medicina nuclear, a cada 6 semanas, em geral por até 4 a 6 ciclos. Cada aplicação dura pouco tempo e, na maioria dos casos, o paciente volta para casa no mesmo dia, com orientações de proteção.

No VISION, a dose foi de 7,4 GBq a cada 6 semanas, por quatro a seis ciclos1. Antes de cada ciclo, são feitos exames de sangue e de função dos rins para confirmar que o organismo está pronto para a próxima dose.

Depois da aplicação, o corpo elimina a radiação principalmente pela urina, ao longo de alguns dias. A equipe orienta medidas simples, como beber bastante água, urinar com frequência, dar descarga duas vezes e manter distância de crianças e gestantes por alguns dias.

Quais são os efeitos colaterais do Lutécio-177 PSMA?

Os efeitos mais comuns são boca seca, cansaço, náusea e queda das células do sangue, como anemia e redução das plaquetas. Em geral são leves ou moderados e acompanhados de perto. No estudo VISION, a qualidade de vida não piorou com o tratamento.

A boca seca ocorre porque as glândulas salivares também têm PSMA e captam parte do medicamento. Hidratação, balas sem açúcar e cuidados com a higiene bucal ajudam.

No VISION, efeitos colaterais graves (grau 3 ou mais) ocorreram em 52,7% dos homens tratados com Lu-PSMA e em 38,0% no grupo sem Lu-PSMA, mas a qualidade de vida não foi prejudicada1. Os exames de sangue regulares permitem ajustar ou adiar doses se necessário.

O que ainda está em estudo?

Pesquisas avaliam o uso do Lutécio-177 PSMA em fases mais precoces da doença, em combinação com outros medicamentos e com novas moléculas radioativas. Até que esses estudos amadureçam, a indicação segue as diretrizes atuais e é individualizada, discutida entre o paciente e sua equipe.

O PSMAfore já mostrou benefício antes da quimioterapia2, e outros estudos testam o radioligante quando a doença ainda responde ao bloqueio hormonal. As diretrizes são atualizadas todos os anos à medida que novos resultados surgem3.

Participar de um estudo clínico pode ser uma alternativa para alguns homens. Pergunte ao seu médico se há algum estudo adequado ao seu caso.

Perguntas frequentes

Como funciona o tratamento com Lutécio-177 PSMA (Pluvicto)?

O Lu-PSMA é um radioligante: uma molécula que encontra as células do câncer pelo corpo e entrega radiação diretamente nelas. Indicado em doença metastática resistente, após outras linhas de tratamento.

O Lutécio-177 PSMA cura o câncer de próstata?

Não é considerado um tratamento curativo. Ele é usado na doença metastática resistente ao bloqueio hormonal para controlar o câncer, reduzir o PSA, aliviar sintomas e prolongar a vida. No estudo VISION, a sobrevida mediana passou de 11,3 para 15,3 meses. Alguns homens respondem por períodos bem mais longos.

Quantas sessões de Lutécio-177 PSMA são feitas?

Em geral, são até 4 a 6 ciclos, com intervalo de 6 semanas entre eles. O número exato depende da resposta do PSA, dos exames de imagem e da tolerância, principalmente das células do sangue e da função dos rins. A equipe avalia antes de cada nova aplicação.

Preciso ficar internado ou isolado depois da aplicação?

Na maioria dos casos, não é preciso internação. O paciente recebe o medicamento na medicina nuclear e volta para casa no mesmo dia. Por alguns dias, recomenda-se manter distância de crianças e gestantes, dormir separado e reforçar a higiene no banheiro, conforme as orientações do serviço.

E se o meu PET-PSMA não mostrar captação suficiente?

Nesse caso, o Lutécio-177 PSMA provavelmente não trará benefício, porque o medicamento não conseguirá se ligar ao tumor. Isso não significa ausência de opções: existem outros tratamentos, como quimioterapia, terapias-alvo para quem tem alterações genéticas, rádio-223 e estudos clínicos, escolhidos conforme cada situação.

O Pluvicto é quimioterapia?

Não. O Pluvicto é uma forma de radioterapia interna chamada radioligante. Ele leva radiação diretamente às células que têm PSMA, em vez de agir sobre todas as células que se multiplicam, como a quimioterapia. Por isso, não costuma causar queda de cabelo, mas exige acompanhamento do sangue e dos rins.

Quais cuidados devo ter com a família após o tratamento?

Nos primeiros dias, beba bastante água, urine com frequência, dê descarga duas vezes e lave bem as mãos. Evite contato próximo e prolongado com crianças pequenas e gestantes pelo período indicado pela equipe. O convívio normal com adultos costuma ser seguro com essas precauções.

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Referências científicas

  1. Sartor O, de Bono J, Chi KN, Fizazi K, Herrmann K, Rahbar K, et al. Lutetium-177-PSMA-617 for Metastatic Castration-Resistant Prostate Cancer. N Engl J Med. 2021;385(12):1091-1103. doi:10.1056/NEJMoa2107322 · PubMed 34161051
  2. Morris MJ, Castellano D, Herrmann K, de Bono JS, Shore ND, Chi KN, et al. [177Lu]Lu-PSMA-617 versus a change of androgen receptor pathway inhibitor therapy for taxane-naive patients with progressive metastatic castration-resistant prostate cancer (PSMAfore): a phase 3, randomised, controlled trial. Lancet. 2024;404(10459):1227-1239. doi:10.1016/S0140-6736(24)01653-2 · PubMed 39293462
  3. Tilki D, van den Bergh RCN, Briers E, Van den Broeck T, Brunckhorst O, Darraugh J, et al. EAU-EANM-ESTRO-ESUR-ISUP-SIOG Guidelines on Prostate Cancer. Part II-2024 Update: Treatment of Relapsing and Metastatic Prostate Cancer. Eur Urol. 2024;86(2):164-182. doi:10.1016/j.eururo.2024.04.010 · PubMed 38688773
  4. Hofman MS, Emmett L, Sandhu S, Iravani A, Joshua AM, Goh JC, et al. [177Lu]Lu-PSMA-617 versus cabazitaxel in patients with metastatic castration-resistant prostate cancer (TheraP): a randomised, open-label, phase 2 trial. Lancet. 2021;397(10276):797-804. doi:10.1016/S0140-6736(21)00237-3 · PubMed 33581798

Diretrizes

Baseado no estudo VISION (NEJM 2021) e NCCN 2025

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Este conteúdo é educativo e não substitui a avaliação individual com seu médico.