Trilha Avançada
Abiraterona, enzalutamida, apalutamida, darolutamida: entenda os ARPIs

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Um panorama completo do tratamento das metástases do câncer de próstata: do bloqueio hormonal aos ARPIs e às terapias mais modernas.
Em resumo
- Cada medicamento tem perfil próprio: abiraterona exige corticoide e controle de pressão; enzalutamida e apalutamida podem dar fadiga; darolutamida tende a ser mais 'leve' no sistema nervoso.
- A escolha considera suas outras doenças, medicamentos em uso e logística — não existe 'o melhor absoluto', existe o melhor para você.
- Doença metastática hoje se trata com combinação desde o início (ADT + ARPI ± quimioterapia em casos selecionados) — esperar 'piorar' para intensificar é conduta ultrapassada.
O que são os ARPIs e como eles agem?
ARPIs (inibidores da via do receptor androgênico) são comprimidos que bloqueiam o hormônio masculino de forma mais potente que a injeção tradicional. Os quatro principais são abiraterona, enzalutamida, apalutamida e darolutamida, sempre usados junto com o bloqueio hormonal, e não no lugar dele.
A injeção de bloqueio hormonal (ADT) reduz a testosterona produzida nos testículos. Mas as células do câncer ainda conseguem aproveitar pequenas quantidades de hormônio vindas das glândulas suprarrenais ou fabricadas pelo próprio tumor. Os ARPIs atacam justamente esse "escape"1.
A abiraterona impede a fabricação de hormônio masculino em todo o corpo, inclusive dentro do tumor. Já enzalutamida, apalutamida e darolutamida bloqueiam o receptor, a "fechadura" onde o hormônio se encaixa para estimular a célula.
Os ARPIs não são quimioterapia. Eles fazem parte da família da hormonioterapia e são tomados em casa, por via oral, todos os dias.
Por que somar um ARPI ao bloqueio hormonal desde o início?
Porque grandes estudos mostraram que acrescentar um ARPI à injeção de bloqueio hormonal, logo no diagnóstico da doença metastática, aumenta a sobrevida e atrasa a progressão. Por isso, a combinação é hoje o padrão recomendado para os homens em condições de recebê-la.
No estudo LATITUDE, a abiraterona somada ao bloqueio hormonal reduziu o risco de morte em cerca de 38% e mais que dobrou o tempo sem progressão nos exames de imagem: 33 meses contra 14,8 meses2.
No estudo TITAN, com apalutamida, 82,4% dos homens estavam vivos em dois anos, contra 73,5% com o bloqueio isolado3. No ENZAMET, com enzalutamida, a sobrevida em três anos foi de 80% contra 72%4.
No ARASENS, a darolutamida acrescentada ao bloqueio hormonal e à quimioterapia com docetaxel reduziu o risco de morte em 32,5%, sem aumento relevante de efeitos colaterais em relação ao placebo5. As diretrizes europeias recomendam intensificar o tratamento desde o início em todos os homens com condições clínicas para isso1. Esperar a doença "piorar" para só então intensificar é uma conduta ultrapassada.
Abiraterona: para que serve e por que vem com prednisona?
A abiraterona trata o câncer de próstata metastático e, em casos selecionados, doença de alto risco. Ela é tomada uma vez ao dia, em jejum, junto com um corticoide em dose baixa (prednisona ou prednisolona), que evita alterações na pressão e no potássio.
Ao bloquear a fabricação de hormônios, a abiraterona também altera a produção de outros hormônios das suprarrenais. O corticoide em dose baixa corrige esse desequilíbrio. Mesmo assim, no LATITUDE, pressão alta e potássio baixo foram mais frequentes no grupo da abiraterona2.
Por isso, o acompanhamento inclui medir a pressão, dosar o potássio e checar exames do fígado, principalmente nos primeiros meses. Quem tem diabetes deve ficar atento à glicose, já que o corticoide pode elevá-la.
O comprimido deve ser tomado com o estômago vazio, pois a comida aumenta muito a absorção e pode elevar os efeitos colaterais. Siga exatamente a orientação da bula e do seu médico.
Enzalutamida e apalutamida: quais os efeitos colaterais?
Os efeitos mais comuns são cansaço, ondas de calor, pressão alta e maior risco de quedas. A apalutamida pode causar manchas na pele e alterações da tireoide. A enzalutamida raramente pode causar convulsões. A maioria dos efeitos é manejável com ajustes.
No ENZAMET, a fadiga foi mais frequente com enzalutamida, e convulsões ocorreram em cerca de 1% dos homens tratados4. Quem já teve convulsão ou tem doenças neurológicas precisa informar o médico antes de começar.
No TITAN, a frequência de efeitos graves foi semelhante entre apalutamida e placebo, mas manchas e coceira na pele foram mais comuns com o medicamento3.
Os dois medicamentos interagem com vários outros remédios, como alguns anticoagulantes, remédios para colesterol e para o coração. Leve sempre a lista completa do que você usa, incluindo fitoterápicos e suplementos.
Darolutamida: por que é considerada mais leve?
A darolutamida tem estrutura química que atravessa pouco a barreira do cérebro. Por isso, tende a causar menos cansaço, confusão e risco de quedas, o que pode ser importante para homens mais velhos, com vários remédios ou com problemas de memória.
No estudo ARASENS, os efeitos colaterais foram parecidos nos grupos que receberam darolutamida ou placebo, ambos associados ao bloqueio hormonal e ao docetaxel. Os efeitos mais intensos apareceram durante a quimioterapia, e não pela darolutamida em si5.
A darolutamida também tem menos interações medicamentosas que enzalutamida e apalutamida, um ponto relevante para quem toma muitos remédios. Ainda assim, não existe estudo comparando diretamente os quatro ARPIs entre si.
Como é feita a escolha do ARPI?
Não existe um ARPI ideal para todos. A escolha leva em conta as outras doenças, os remédios em uso, o risco de quedas, a memória, o estágio da doença, se haverá quimioterapia junto e o acesso ao medicamento. A decisão é individual, feita com o seu médico.
Como não há comparações diretas entre eles, a escolha se baseia no perfil de efeitos colaterais e na situação de cada homem1. Por exemplo, alguém com diabetes de difícil controle pode se beneficiar de evitar o corticoide; quem tem quedas frequentes ou problemas de memória pode se beneficiar de um perfil mais leve no sistema nervoso.
- Pressão alta, doença do coração ou diabetes
- Remédios em uso e risco de interações
- Histórico de convulsão, quedas ou problemas de memória
- Volume da doença e indicação de quimioterapia
- Cobertura pelo plano de saúde ou pelo SUS
Quando entra a quimioterapia: o que é a terapia tripla?
Na terapia tripla, o homem recebe bloqueio hormonal, um ARPI e quimioterapia com docetaxel. Ela é considerada principalmente para quem já tem metástases no diagnóstico, sobretudo com grande volume de doença, e boa condição clínica para tolerar a quimioterapia com segurança.
No estudo PEACE-1, homens com metástases desde o diagnóstico que receberam abiraterona somada ao tratamento padrão tiveram mais tempo sem progressão e maior sobrevida do que os que não receberam6. O ARASENS mostrou benefício semelhante com a darolutamida somada ao docetaxel5.
Nem todo homem precisa de quimioterapia. A decisão considera o volume da doença, a idade biológica, outras doenças e a preferência do paciente. As diretrizes ainda discutem qual grupo tira mais proveito da terapia tripla em relação à dupla1.
Perguntas frequentes
O que são abiraterona, enzalutamida, apalutamida e darolutamida?
Os ARPIs são a evolução do bloqueio hormonal: comprimidos que aumentam sobrevida quando somados ao ADT na doença metastática — hoje, começar cedo com a combinação é o padrão.
Abiraterona é quimioterapia?
Não. A abiraterona é uma hormonioterapia moderna em comprimido. Ela reduz a produção de hormônio masculino que alimenta o câncer de próstata, sem atacar as células como a quimioterapia faz. Por isso, não causa queda de cabelo. Seus cuidados principais envolvem pressão, potássio, fígado e glicose.
Por quanto tempo vou tomar o ARPI?
Em geral, o ARPI é mantido todos os dias enquanto estiver controlando a doença e for bem tolerado, o que pode significar anos. Em algumas situações de doença não metastática, junto com a radioterapia, o uso tem duração definida. O médico acompanha o PSA e os exames para decidir.
Posso tomar o ARPI sem a injeção de bloqueio hormonal?
Na prática padrão, não. Os estudos que mostraram aumento de sobrevida usaram o ARPI sempre associado à injeção ou a outra forma de bloqueio hormonal. Por isso, a injeção deve ser mantida, a não ser que o médico indique outra estratégia dentro de uma situação específica.
Quais são os efeitos colaterais mais comuns dos ARPIs?
Os mais frequentes são cansaço, ondas de calor, aumento da pressão arterial e maior risco de quedas e fraturas. A abiraterona pede controle de pressão, potássio e fígado; a apalutamida pode causar manchas na pele. Quase sempre é possível manejar os efeitos com ajustes, sem abandonar o tratamento.
Se um ARPI parar de funcionar, posso trocar por outro?
A troca de um ARPI por outro costuma trazer benefício pequeno, porque o tumor tende a desenvolver resistência cruzada. Quando a doença avança, geralmente se consideram outras opções, como quimioterapia, terapias-alvo para quem tem alterações genéticas ou radioligantes como o Lutécio-177 PSMA, conforme cada caso.
Posso tomar o ARPI junto com meus outros remédios?
Muitas vezes sim, mas enzalutamida e apalutamida interagem com vários medicamentos, como anticoagulantes e remédios para colesterol ou coração. A darolutamida tem menos interações. Leve à consulta a lista completa do que você usa, incluindo chás, suplementos e fitoterápicos, para evitar riscos.
Perguntas para levar à consulta
- Qual é o objetivo do meu tratamento atual (controle, sintomas, ambos)?
- Quais os efeitos colaterais e como vamos manejá-los ativamente?
- Devo fazer teste genético (BRCA)? Isso muda opções?
- Sou candidato a Lu-PSMA ou a algum ensaio clínico?
- Como vamos proteger meus ossos e meu coração durante o bloqueio?
Ver a lista completa de perguntas por fase
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Referências científicas
- Tilki D, van den Bergh RCN, Briers E, Van den Broeck T, Brunckhorst O, Darraugh J, et al. EAU-EANM-ESTRO-ESUR-ISUP-SIOG Guidelines on Prostate Cancer. Part II-2024 Update: Treatment of Relapsing and Metastatic Prostate Cancer. Eur Urol. 2024;86(2):164-182. doi:10.1016/j.eururo.2024.04.010 · PubMed 38688773
- Fizazi K, Tran N, Fein L, Matsubara N, Rodriguez-Antolin A, Alekseev BY, et al. Abiraterone plus Prednisone in Metastatic, Castration-Sensitive Prostate Cancer. N Engl J Med. 2017;377(4):352-360. doi:10.1056/NEJMoa1704174 · PubMed 28578607
- Chi KN, Agarwal N, Bjartell A, Chung BH, Pereira de Santana Gomes AJ, Given R, et al. Apalutamide for Metastatic, Castration-Sensitive Prostate Cancer. N Engl J Med. 2019;381(1):13-24. doi:10.1056/NEJMoa1903307 · PubMed 31150574
- Davis ID, Martin AJ, Stockler MR, Begbie S, Chi KN, Chowdhury S, et al. Enzalutamide with Standard First-Line Therapy in Metastatic Prostate Cancer. N Engl J Med. 2019;381(2):121-131. doi:10.1056/NEJMoa1903835 · PubMed 31157964
- Smith MR, Hussain M, Saad F, Fizazi K, Sternberg CN, Crawford ED, et al. Darolutamide and Survival in Metastatic, Hormone-Sensitive Prostate Cancer. N Engl J Med. 2022;386(12):1132-1142. doi:10.1056/NEJMoa2119115 · PubMed 35179323
- Fizazi K, Foulon S, Carles J, Roubaud G, McDermott R, Fléchon A, et al. Abiraterone plus prednisone added to androgen deprivation therapy and docetaxel in de novo metastatic castration-sensitive prostate cancer (PEACE-1): a multicentre, open-label, randomised, phase 3 study with a 2 × 2 factorial design. Lancet. 2022;399(10336):1695-1707. doi:10.1016/S0140-6736(22)00367-1 · PubMed 35405085
Diretrizes
Baseado em NCCN 2025, EAU 2025 e ensaios de fase III (ARASENS, PEACE-1)
Este conteúdo é educativo e não substitui a avaliação individual com seu médico.