Trilha Avançada
Bloqueio hormonal (ADT): como funciona e como viver melhor com ele

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1940: Ano em que o conceito de bloqueio hormonal foi introduzido pelo Dr. Charles Huggens. 95%: Porcentagem de testosterona produzida nos testículos. 5%: Produzida pelas glândulas suprarrenais. 5%: Dos pacientes com metástase que se beneficiam da imunoterapi…
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Em resumo
- Injeções periódicas 'desligam' a produção de testosterona. O tumor encolhe e o PSA cai — em geral de forma rápida.
- Efeitos esperados: ondas de calor, perda de massa muscular, ganho de gordura, queda de libido e risco ósseo. Nenhum deles deve ser sofrido em silêncio.
- Contramedidas comprovadas: musculação 2–3x/semana, vitamina D e cálcio, controle cardiometabólico e acompanhamento regular. Exercício é 'remédio' aqui.
O que é o bloqueio hormonal no câncer de próstata?
O bloqueio hormonal, também chamado de hormonioterapia ou ADT, é o tratamento que reduz a testosterona, o hormônio masculino que funciona como principal combustível das células do câncer de próstata. Sem esse combustível, o tumor tende a encolher e o PSA cai.
A relação entre testosterona e câncer de próstata foi descrita na década de 1940 pelo médico Charles Huggins, trabalho que lhe rendeu o Prêmio Nobel. Desde então, o bloqueio hormonal é a base do tratamento da doença avançada1.
Cerca de 95% da testosterona do homem é produzida nos testículos; o restante vem das glândulas suprarrenais. Por isso, o bloqueio age principalmente sobre a produção dos testículos, reduzindo a testosterona a níveis muito baixos.
É importante saber que o bloqueio hormonal controla a doença, mas sozinho não costuma eliminá-la. Com o tempo, parte das células pode aprender a crescer mesmo com a testosterona baixa. É o que chamamos de câncer resistente ao bloqueio hormonal, fase em que existem outras opções de tratamento.
Como é feito o bloqueio hormonal: injeção, comprimido ou cirurgia?
Na maioria dos casos, o bloqueio é feito com injeções aplicadas a cada 1, 3 ou 6 meses. Também existem medicamentos que agem mais rápido, incluindo um comprimido diário, e a opção cirúrgica de retirar o tecido dos testículos, que tem efeito permanente.
As injeções mais usadas são os agonistas de LHRH (como leuprorrelina, gosserrelina e triptorrelina). Nas primeiras semanas, elas podem causar uma subida passageira da testosterona, o chamado efeito flare. Para evitar piora temporária de sintomas, o médico pode associar um comprimido antiandrogênico nos primeiros dias.
Os antagonistas baixam a testosterona de forma imediata, sem esse pico. No estudo HERO, o relugolix, um antagonista em comprimido diário, manteve a testosterona suprimida em 96,7% dos homens em 48 semanas, contra 88,8% com a injeção de leuprorrelina. Eventos cardiovasculares maiores ocorreram em 2,9% contra 6,2%2. A disponibilidade de cada medicamento varia no Brasil.
A orquiectomia (cirurgia que retira o tecido produtor de hormônio dos testículos) é simples e tem efeito definitivo. Hoje é menos escolhida, mas continua sendo uma alternativa válida em situações específicas.
- Injeção a cada 1, 3 ou 6 meses (agonistas de LHRH)
- Injeção mensal de antagonista (degarelix)
- Comprimido diário de antagonista (relugolix)
- Cirurgia (orquiectomia), com efeito permanente
Quando o bloqueio hormonal é indicado?
O bloqueio hormonal é indicado principalmente no câncer de próstata metastático, junto com a radioterapia em tumores de risco intermediário ou alto e em alguns casos de PSA que volta a subir após o tratamento inicial. A duração depende de cada situação.
Na doença metastática, o bloqueio hormonal é mantido de forma contínua. Hoje as diretrizes recomendam que ele seja combinado desde o início com medicamentos mais modernos (os ARPIs) e, em casos selecionados, com quimioterapia, porque a combinação aumenta a sobrevida1.
Associado à radioterapia, o bloqueio é usado por tempo limitado: em geral de 4 a 6 meses no risco intermediário e de 18 a 36 meses no alto risco. Depois disso, a testosterona tende a se recuperar.
Na recidiva bioquímica (quando só o PSA sobe após cirurgia ou radioterapia), o momento de começar é individualizado. Nem todo PSA subindo exige bloqueio imediato; a velocidade de subida e os exames de imagem ajudam na decisão1.
Quais são os efeitos colaterais do bloqueio hormonal?
Os efeitos mais comuns são ondas de calor, cansaço, queda da libido e da ereção, perda de massa muscular, ganho de gordura e perda de massa óssea. Eles variam de pessoa para pessoa e podem ser reduzidos com medidas simples e acompanhamento.
Uma ampla revisão publicada no European Urology reuniu os efeitos do bloqueio hormonal sobre ossos, metabolismo, coração, sexualidade, memória e composição corporal3. Nenhum deles precisa ser suportado em silêncio: conte ao seu médico o que está sentindo.
Estudos observacionais sugerem aumento do risco de diabetes e de eventos cardiovasculares, embora a maioria não mostre maior mortalidade cardiovascular3. Por isso, pressão, glicemia e colesterol devem ser acompanhados de perto, principalmente em quem já tem doença do coração.
- Ondas de calor e suor noturno
- Diminuição do desejo sexual e da ereção
- Perda de massa muscular e ganho de gordura na barriga
- Perda de massa óssea (osteopenia e osteoporose)
- Aumento da resistência à insulina
- Crescimento das mamas (ginecomastia) e redução dos testículos
- Anemia leve, fadiga e alterações de humor ou memória
Exercício físico ajuda durante o bloqueio hormonal?
Sim. O exercício é considerado parte do tratamento. Musculação duas a três vezes por semana, somada a caminhada ou outra atividade aeróbica, ajuda a preservar músculos, reduzir gordura, melhorar a disposição e a qualidade de vida. O ideal é começar cedo, logo no início do tratamento.
Uma revisão sistemática com 18 estudos randomizados e 1.477 homens mostrou que o exercício supervisionado melhora a qualidade de vida e a capacidade de caminhar de quem está em bloqueio hormonal, com certeza moderada da evidência4.
Outra análise, com 12 estudos e 715 participantes, observou mais massa magra e menos gordura nos homens que se exercitaram. O benefício foi maior quando o exercício começou logo no início do bloqueio e durou pelo menos seis meses5. Programas que combinam musculação e exercícios de impacto parecem os mais promissores para os ossos5.
Comece aos poucos, de preferência com orientação de um profissional de educação física ou fisioterapeuta, principalmente se houver metástases nos ossos, dor ou problemas de equilíbrio.
Como proteger os ossos, o coração e o bem-estar?
A proteção inclui cálcio e vitamina D adequados, densitometria óssea periódica, remédios para os ossos quando indicados, controle de pressão, glicose e colesterol, e tratamento específico para ondas de calor e alterações nas mamas. Consultas regulares permitem ajustar cada medida.
Para os ossos, a densitometria ajuda a medir o risco de fratura. Quando há perda óssea importante, medicamentos como bisfosfonatos e denosumabe reduzem a perda de massa óssea, conforme estudos randomizados3.
As ondas de calor que atrapalham o dia a dia podem melhorar com medicamentos como venlafaxina, gabapentina ou medroxiprogesterona. O crescimento das mamas pode ser prevenido com tamoxifeno ou radioterapia preventiva em situações selecionadas3.
Alimentação equilibrada, sono regular, parar de fumar e apoio emocional completam o cuidado. Mudanças de humor e desânimo são comuns e merecem atenção; conversar sobre isso faz parte do tratamento.
Bloqueio hormonal intermitente: é possível fazer pausas?
Em casos selecionados, sim. No bloqueio intermitente, o tratamento é suspenso quando o PSA cai bem e retomado quando volta a subir. É uma opção mais usada na recidiva só com PSA; na doença metastática, a tendência atual é o tratamento contínuo e combinado.
As pausas permitem que a testosterona se recupere parcialmente, o que pode aliviar efeitos como ondas de calor e queda da libido. Para funcionar, exige acompanhamento rigoroso do PSA e um paciente bem informado1.
Na doença metastática, a maior parte dos estudos que mostraram ganho de sobrevida usou bloqueio contínuo associado a outros medicamentos. Por isso, a decisão de fazer pausas deve ser discutida caso a caso com o seu médico, nunca por conta própria.
Perguntas frequentes
Como funciona o bloqueio hormonal no câncer de próstata?
O bloqueio hormonal corta o principal combustível do tumor: a testosterona. É a base do tratamento da doença avançada — e seus efeitos colaterais podem (e devem) ser manejados ativamente.
O bloqueio hormonal cura o câncer de próstata?
Sozinho, o bloqueio hormonal não costuma curar, mas controla a doença, muitas vezes por anos. Quando associado à radioterapia em tumores localizados de maior risco, faz parte de uma estratégia com intenção de cura. Na doença metastática, o objetivo é controle prolongado com qualidade de vida, em geral combinado com outros medicamentos.
Hormonioterapia para câncer de próstata engorda?
Pode favorecer ganho de gordura, sobretudo na barriga, e perda de músculo, porque a testosterona baixa muda o metabolismo. Isso não é inevitável: musculação, atividade aeróbica e alimentação equilibrada reduzem bastante esse efeito. Estudos mostram mais massa magra e menos gordura em quem se exercita durante o tratamento.
Por quanto tempo vou tomar a injeção de bloqueio hormonal?
Depende da situação. Junto com a radioterapia, costuma durar de 4 a 6 meses no risco intermediário e de 18 a 36 meses no alto risco. Na doença metastática, o bloqueio geralmente é mantido de forma contínua, mesmo quando o PSA fica indetectável. Seu médico definirá o tempo adequado para você.
A ereção e a libido voltam depois que o bloqueio termina?
Em muitos homens, sim, mas a recuperação da testosterona pode levar meses e às vezes é incompleta, principalmente após tratamentos longos e em homens mais velhos. Enquanto isso, existem tratamentos para a função sexual. Converse abertamente com a equipe sobre esse tema, que faz parte do cuidado.
O bloqueio hormonal é o mesmo que quimioterapia?
Não. O bloqueio hormonal apenas reduz a testosterona, sem atacar diretamente as células como a quimioterapia faz. Por isso, não causa queda de cabelo nem os efeitos típicos da quimioterapia. Em alguns casos de doença metastática, os dois tratamentos podem ser usados juntos, por decisão individual.
Se meu PSA zerou, posso parar a injeção?
Não interrompa o tratamento por conta própria. O PSA baixo mostra que o bloqueio está funcionando, e parar pode permitir que a doença volte a crescer. Pausas planejadas, no chamado bloqueio intermitente, só são feitas em casos selecionados, com acompanhamento rigoroso e decisão conjunta com o médico.
Perguntas para levar à consulta
- Qual é o objetivo do meu tratamento atual (controle, sintomas, ambos)?
- Quais os efeitos colaterais e como vamos manejá-los ativamente?
- Devo fazer teste genético (BRCA)? Isso muda opções?
- Sou candidato a Lu-PSMA ou a algum ensaio clínico?
- Como vamos proteger meus ossos e meu coração durante o bloqueio?
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Referências científicas
- Tilki D, van den Bergh RCN, Briers E, Van den Broeck T, Brunckhorst O, Darraugh J, et al. EAU-EANM-ESTRO-ESUR-ISUP-SIOG Guidelines on Prostate Cancer. Part II-2024 Update: Treatment of Relapsing and Metastatic Prostate Cancer. Eur Urol. 2024;86(2):164-182. doi:10.1016/j.eururo.2024.04.010 · PubMed 38688773
- Shore ND, Saad F, Cookson MS, George DJ, Saltzstein DR, Tutrone R, et al. Oral Relugolix for Androgen-Deprivation Therapy in Advanced Prostate Cancer. N Engl J Med. 2020;382(23):2187-2196. doi:10.1056/NEJMoa2004325 · PubMed 32469183
- Nguyen PL, Alibhai SM, Basaria S, D'Amico AV, Kantoff PW, Keating NL, et al. Adverse effects of androgen deprivation therapy and strategies to mitigate them. Eur Urol. 2015;67(5):825-836. doi:10.1016/j.eururo.2014.07.010 · PubMed 25097095
- Ussing A, Mikkelsen MK, Villumsen BR, Wejlgaard J, Bistrup PE, Birkefoss K, et al. Supervised exercise therapy compared with no exercise therapy to reverse debilitating effects of androgen deprivation therapy in patients with prostate cancer: a systematic review and meta-analysis. Prostate Cancer Prostatic Dis. 2022;25(3):491-506. doi:10.1038/s41391-021-00450-0 · PubMed 34489536
- Shao W, Zhang H, Qi H, Zhang Y. The effects of exercise on body composition of prostate cancer patients receiving androgen deprivation therapy: An update systematic review and meta-analysis. PLoS One. 2022;17(2):e0263918. doi:10.1371/journal.pone.0263918 · PubMed 35167609
Diretrizes
Baseado em NCCN 2025 e EAU 2025 (doença avançada)
Este conteúdo é educativo e não substitui a avaliação individual com seu médico.